Chegar aos 70 anos costuma trazer uma série de reflexões sobre família, legado e propósito. Uma delas, apontada por estudos da psicologia do envelhecimento, envolve a sensação de utilidade. Afinal, o que acontece quando os filhos crescem, constroem suas próprias vidas e já não precisam mais dos pais da mesma forma que antes?
Para muitos idosos, esse processo pode gerar impactos importantes no bem-estar emocional. Não necessariamente porque deixaram de ser amados, mas porque passam a sentir que deixaram de ser necessários.
Curiosamente, esse não parece ser o caso da atriz Vera Fischer. Aos 74 anos, a artista mantém uma rotina independente e confortável.
Ela mora sozinha em um apartamento no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e conserva uma relação aparentemente saudável com os filhos, Rafaela Fischer e Gabriel Camargo. Mesmo assim, a veterana já tenha revelado que a filha mais velha a internou em uma clínica de reabilitação na Argentina.
Ainda assim, Vera também falou publicamente sobre outro incômodo relacionado ao envelhecimento: a diminuição de oportunidades profissionais na televisão, algo que ela associa ao etarismo.
A situação vivida por muitos idosos, porém, vai além da carreira. Pesquisadores da psicologia do envelhecimento observam há anos que, na velhice, não basta apenas receber afeto, também é importante sentir que ainda se tem um papel relevante na vida das pessoas.
Uma revisão acadêmica publicada em 2020 sobre envelhecimento e senso de importância mostrou que sentir-se valorizado influencia diretamente a autoestima, a saúde mental e a capacidade de adaptação às mudanças dessa fase da vida.
O sofrimento surge não apenas quando existem poucos vínculos afetivos, mas também quando a pessoa percebe que continua sendo querida, porém já não ocupa um lugar ativo no cotidiano de quem ama.
A questão da utilidade também aparece em pesquisas clássicas sobre envelhecimento. Um estudo realizado com adultos entre 70 e 79 anos revelou que aqueles que relatavam sentir-se pouco úteis para os outros apresentavam maior risco de desenvolver incapacidades físicas e até maior mortalidade nos anos seguintes.
Isso acontece porque o sentimento de utilidade está profundamente ligado à identidade humana. Quando esse papel diminui, é natural surgir uma pergunta difícil: "Qual é o meu lugar agora?"
A psicologia mostra que a ideia não é substituir a relação com os filhos nem diminuir sua importância. O objetivo é evitar que toda a identidade de uma pessoa fique dependente de ser indispensável para eles.
Por isso, a reflexão é a seguinte: ser amado continua sendo fundamental em qualquer idade. Porém, sentir-se necessário, ouvido e valorizado permanece igualmente importante para a saúde emocional, especialmente quando a vida entra em uma fase em que tantas outras funções e papéis começam a mudar.
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